REPERTÓRIO

Repertório não é o que você cita.
É o que você explica.

A Competência 2 avalia se a sua referência sustenta o argumento — não se ela é bonita. Aqui estão repertórios organizados por tema, cada um com a ideia central e a frase de conexão que faz ele pontuar.

O ERRO MAIS CARO

O problema do repertório de bolso.

A Cartilha do Participante reforça que a referência precisa ser produtiva: usada a favor do argumento, e não apenas mencionada. Frase decorada que serve para qualquer tema é reconhecida pelo corretor — e não entrega o ponto que deveria.

NÃO FUNCIONA

  • Citar o nome do autor sem dizer qual ideia dele você está usando
  • Encaixar a mesma frase de Bauman em qualquer tema, do meio ambiente à tecnologia
  • Usar 'segundo pesquisas recentes' sem instituição, número ou ano
  • Trocar o repertório de lugar sem mudar a frase de conexão
  • Encher a introdução de três citações e não explicar nenhuma

FUNCIONA

  • Uma referência por parágrafo, explicada em uma frase logo depois
  • A frase de conexão começa com 'ou seja', 'nesse sentido' ou 'assim'
  • O repertório aparece a favor do argumento daquele parágrafo específico
  • Lei citada com número e ano, dado citado com a fonte
  • 10 a 15 repertórios que você entende de verdade, em vez de 50 decorados

COMO ENCAIXAR

Três passos dentro do parágrafo.

A ordem importa: argumento primeiro, referência depois, ponte no fim. Invertida, a citação vira enfeite de abertura.

PASSO 1

Anuncie o argumento

Abra o parágrafo com o tópico frasal: a ideia que você vai defender ali, em uma frase, antes de qualquer citação.

PASSO 2

Traga o repertório

Apresente a referência com o mínimo de identificação: autor e obra, número e ano da lei, instituição e ano do dado.

PASSO 3

Faça a ponte

A frase que vale ponto: explique o que aquela referência prova sobre o seu argumento. Sem ela, a Competência 2 não reconhece o repertório como produtivo.

O BANCO

Repertórios por tema.

Oito recortes que cobrem a maior parte das propostas do ENEM e dos vestibulares. Cada referência traz o que ela diz e como conectar ao seu argumento.

MEIO AMBIENTE

Crise climática e meio ambiente

Tema recorrente em vestibulares e no ENEM. Funciona melhor quando o repertório sai do genérico 'preservar a natureza' e entra em responsabilidade jurídica ou modelo econômico.

LEI

Constituição Federal, art. 225

Define o meio ambiente ecologicamente equilibrado como bem de uso comum do povo, e impõe ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo.

Como conectar: Use para mostrar que a preservação não é escolha individual, mas obrigação prevista em lei — e que o descumprimento é falha do Estado, não só de consumidores.

DOCUMENTO

Acordo de Paris (2015)

Tratado internacional em que os países se comprometeram a limitar o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2 °C em relação a níveis pré-industriais.

Como conectar: Serve para contrastar compromisso assumido e prática real, mostrando a distância entre a meta assinada e a política executada.

AUTOR

Milton Santos, "Por uma outra globalização" (2000)

O geógrafo argumenta que a globalização hegemônica se organiza pelo lucro e produz territórios desiguais.

Como conectar: Encaixe quando o argumento for que o dano ambiental recai sobre as populações mais pobres, e não sobre quem lucra com ele.

OBRA

"Ilha das Flores" (Jorge Furtado, 1989)

Curta-metragem que acompanha o percurso do lixo e termina expondo a hierarquia entre porcos e seres humanos no acesso ao descarte.

Como conectar: Use para ligar consumo, descarte e desigualdade em uma frase — funciona também em temas de fome e resíduos.

EDUCAÇÃO

Educação e acesso ao conhecimento

Quase todo tema aceita um recorte educacional na proposta de intervenção. Vale ter dois repertórios fortes daqui mesmo que o tema não seja de educação.

LEI

Constituição Federal, art. 205

Estabelece a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa e ao preparo para o exercício da cidadania.

Como conectar: Ótimo para introdução: parte do direito garantido e aponta a distância entre o texto legal e a realidade do recorte que você vai discutir.

AUTOR

Paulo Freire, "Pedagogia do Oprimido" (1968)

Critica a educação bancária, em que o aluno é depósito passivo de conteúdo, e defende uma prática que forme sujeitos críticos.

Como conectar: Use quando o argumento for que informar não basta — é preciso formar capacidade de análise, seja sobre fake news, consumo ou política.

DOCUMENTO

Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), art. 26

Afirma que toda pessoa tem direito à instrução, gratuita ao menos nos graus elementares.

Como conectar: Repertório internacional útil quando o tema envolve exclusão de algum grupo do sistema de ensino.

AUTOR

Antonio Candido, "O Direito à Literatura" (1988)

Defende que a literatura é um bem incompressível, isto é, uma necessidade humana básica, e não um luxo.

Como conectar: Encaixa em temas de cultura, leitura e acesso a bens culturais, elevando o argumento de 'lazer' para 'direito'.

SAÚDE

Saúde pública e saúde mental

Recorte que exige cuidado: a proposta de intervenção precisa respeitar direitos humanos e não pode culpar o indivíduo pela própria condição.

LEI

Constituição Federal, art. 196

Define a saúde como direito de todos e dever do Estado, garantido por políticas que visem à redução do risco de doença e ao acesso universal.

Como conectar: Base jurídica para qualquer argumento sobre falha de acesso — do atendimento psicológico à distribuição de medicamentos.

AUTOR

Zygmunt Bauman, "Modernidade Líquida" (2000)

Descreve laços sociais frágeis e transitórios em uma sociedade orientada ao consumo e à velocidade.

Como conectar: Use em saúde mental e solidão, mas escreva a frase de conexão: a liquidez explica por que o vínculo que sustentaria a pessoa não se forma.

AUTOR

Josué de Castro, "Geografia da Fome" (1946)

Demonstra que a fome no Brasil é produto de estrutura social e política, não de escassez natural.

Como conectar: Serve para deslocar a causa do indivíduo para a estrutura — vale em fome, obesidade e insegurança alimentar.

OBRA

Carolina Maria de Jesus, "Quarto de Despejo" (1960)

Diário de uma catadora na favela do Canindé que registra a fome cotidiana em primeira pessoa.

Como conectar: Repertório brasileiro e datado que dá concretude ao argumento; evita a abstração de falar de pobreza só com números.

TECNOLOGIA

Tecnologia, privacidade e desinformação

Tema em alta e onde o repertório de bolso mais aparece. Citar 'Black Mirror' sem explicar o episódio não sustenta argumento nenhum.

LEI

LGPD — Lei nº 13.709/2018

Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais: regula o tratamento de dados por empresas e pelo poder público e assegura ao titular o controle sobre suas informações.

Como conectar: Use para mostrar que já existe marco legal — o problema passa a ser fiscalização e desconhecimento, o que abre uma proposta de intervenção específica.

AUTOR

Shoshana Zuboff, "A Era do Capitalismo de Vigilância" (2019)

Argumenta que a experiência humana virou matéria-prima gratuita para prever e influenciar comportamento.

Como conectar: Encaixe quando quiser mostrar que o serviço 'gratuito' tem um preço: o dado do usuário, coletado sem consentimento real.

AUTOR

Michel Foucault, "Vigiar e Punir" (1975)

Analisa o panóptico como arquitetura em que a possibilidade constante de ser observado disciplina o comportamento.

Como conectar: Use em vigilância digital, mas conecte: a autovigilância nas redes funciona pelo mesmo mecanismo, sem precisar de guarda.

AUTOR

Hannah Arendt, "Origens do Totalitarismo" (1951)

Descreve como regimes totalitários apagam a fronteira entre fato e ficção, tornando a população incapaz de distinguir verdade de mentira.

Como conectar: Repertório forte para desinformação: explica por que a fake news é problema político, não só individual.

DESIGUALDADE

Desigualdade social e trabalho

Recorte que pede dado ou obra brasileira. Argumento sobre desigualdade sem referência concreta vira opinião.

DADO

Censo 2022 (IBGE)

O Brasil chegou a 203,1 milhões de habitantes, com crescimento anual de 0,52% entre 2010 e 2022 — a menor taxa desde o primeiro censo, em 1872.

Como conectar: Use quando o argumento envolver mudança demográfica: menos nascimentos e mais idosos reorganizam demanda por serviços públicos.

AUTOR

Sérgio Buarque de Holanda, "Raízes do Brasil" (1936)

Apresenta o conceito de homem cordial: a dificuldade brasileira de separar o público do privado e de agir por regra impessoal.

Como conectar: Encaixa em corrupção, privilégio e clientelismo — sempre explicando que 'cordial' ali não significa gentil.

OBRA

Graciliano Ramos, "Vidas Secas" (1938)

Acompanha uma família de retirantes cuja privação material chega até a linguagem, reduzida a poucas palavras.

Como conectar: Use para argumentar que a pobreza limita também o acesso à palavra e à cidadania, não só à renda.

OBRA

Aluísio Azevedo, "O Cortiço" (1890)

Romance naturalista que mostra a exploração do trabalhador urbano e a moradia precária no Rio de Janeiro do século XIX.

Como conectar: Serve para mostrar permanência histórica: o problema de moradia e exploração já estava descrito há mais de um século.

DIREITOS DAS MULHERES

Direitos das mulheres e violência de gênero

A proposta de intervenção aqui precisa de cuidado extra com direitos humanos. Repertórios jurídicos funcionam bem porque abrem caminho para propostas de fiscalização e acolhimento.

LEI

Lei Maria da Penha — Lei nº 11.340/2006

Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, incluindo medidas protetivas de urgência.

Como conectar: Use para mostrar que a lei existe e é referência internacional — o argumento passa a ser sobre aplicação, denúncia e acolhimento.

AUTOR

Simone de Beauvoir, "O Segundo Sexo" (1949)

Sustenta que não se nasce mulher, torna-se mulher: os papéis de gênero são construção social, não destino biológico.

Como conectar: Conecte com a naturalização da violência ou da desigualdade salarial: se o papel é construído, ele pode ser desconstruído por educação.

AUTOR

Djamila Ribeiro, "Pequeno Manual Antirracista" (2019)

Discute como raça e gênero se cruzam e cobra ação prática de quem não é diretamente afetado.

Como conectar: Bom para interseccionalidade: mostra que o mesmo problema atinge de forma diferente mulheres negras e brancas.

AUTOR

Lélia Gonzalez

Intelectual e ativista brasileira que formulou o conceito de amefricanidade e analisou o lugar da mulher negra na sociedade brasileira.

Como conectar: Repertório nacional que substitui bem a citação estrangeira genérica — cite uma ideia dela, não só o nome.

ENVELHECIMENTO

Envelhecimento da população

Tema da redação do ENEM 2025 ("Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira") e recorte que segue rendendo em vestibulares.

DADO

Censo 2022 (IBGE)

As pessoas com 65 anos ou mais somaram 22,1 milhões, 10,9% da população — alta de 57,4% em relação a 2010 e o maior percentual já registrado em um censo brasileiro.

Como conectar: Abre a introdução com concretude: o envelhecimento não é tendência futura, é dado presente que exige política pública agora.

LEI

Estatuto da Pessoa Idosa — Lei nº 10.741/2003

Assegura direitos às pessoas com 60 anos ou mais, incluindo atendimento preferencial, transporte e proteção contra negligência.

Como conectar: Use para mostrar que o arcabouço legal existe e deslocar a discussão para a efetivação — abrindo a proposta de intervenção.

AUTOR

Simone de Beauvoir, "A Velhice" (1970)

Argumenta que a forma como uma sociedade trata seus velhos revela o que ela realmente pensa sobre o valor da vida humana.

Como conectar: Repertório de alto impacto para a conclusão: transforma o tema de logística em questão ética.

AUTOR

Norberto Bobbio, "O Tempo da Memória" (1996)

Reflexão do filósofo italiano sobre a velhice como fase de memória e de perda de espaço social.

Como conectar: Encaixa quando o argumento for sobre invisibilidade e isolamento, não sobre saúde física.

CULTURA E IDENTIDADE

Cultura, memória e herança africana

Tema da redação do ENEM 2024 ("Desafios para a valorização da herança africana no Brasil"). Exige repertório nacional específico — genérico não sustenta o recorte.

LEI

Lei nº 10.639/2003

Torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica.

Como conectar: Base para propostas de intervenção pelo currículo escolar, e para o argumento de que a lei existe mas é aplicada de forma desigual.

AUTOR

Darcy Ribeiro, "O Povo Brasileiro" (1995)

Descreve a formação do povo brasileiro a partir do encontro violento entre indígenas, africanos e europeus.

Como conectar: Use para sustentar que a herança africana é constitutiva do país, não contribuição externa a ser 'incluída'.

AUTOR

Abdias do Nascimento, "O Genocídio do Negro Brasileiro" (1978)

Denuncia o apagamento cultural e a violência estrutural contra a população negra sob o mito da democracia racial.

Como conectar: Repertório forte contra o argumento de que 'no Brasil não existe racismo' — nomeia o apagamento como processo, não acaso.

OBRA

Conceição Evaristo e a escrevivência

Conceito da autora que nomeia a escrita a partir da experiência vivida por mulheres negras, contra a narrativa contada por terceiros.

Como conectar: Use quando o argumento for sobre quem tem o direito de narrar a própria história — cultura como autoria, não como folclore.

TEMAS RECENTES

O que o ENEM tem pedido.

Em 2025 o tema foi "Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira"; em 2024, "Desafios para a valorização da herança africana no Brasil". O padrão se mantém: recortes sociais brasileiros e específicos, que punem o repertório genérico e premiam quem conhece o assunto.

Ver o guia das 5 competências
  • 2025Envelhecimento na sociedade brasileira
  • 2024Valorização da herança africana
  • 2009–2024temas oficiais disponíveis no app

PERGUNTAS FREQUENTES

Dúvidas sobre repertório.

O que é repertório de bolso e por que ele derruba a nota?

É a referência decorada e usada de forma genérica, encaixada em qualquer tema sem conexão real com o recorte — como citar a modernidade líquida de Bauman em toda redação. A Cartilha do Participante reforça que o repertório precisa ser produtivo, isto é, usado a favor do argumento. Citação solta é reconhecida pelo corretor e não pontua como deveria na Competência 2.

Quantos repertórios preciso usar na redação?

Não há número obrigatório. Na prática, um repertório bem explicado na introdução e um em cada desenvolvimento já sustentam a Competência 2. Mais do que isso costuma custar espaço que faria falta na argumentação e na proposta de intervenção.

Posso usar filme, série ou música como repertório?

Pode, desde que seja legitimado e explicado. Um curta como "Ilha das Flores" ou um episódio específico de uma série funcionam se você indicar o que aquela obra mostra e como isso comprova o seu argumento. Citar só o título, sem conteúdo, tem o mesmo efeito de não citar.

Repertório precisa ser de livro difícil?

Não. Lei, dado do IBGE, artigo da Constituição e acontecimento histórico são repertórios legitimados e costumam ser mais fáceis de conectar ao tema do que um filósofo cuja obra você não leu. O critério é a pertinência, não o grau de dificuldade.

Como sei se meu repertório está bem conectado?

Um teste rápido: apague a citação do parágrafo. Se o argumento continua igual, o repertório era decoração. Se o parágrafo perde a comprovação, ele estava produtivo. Na correção do Agora Passei esse ponto aparece marcado no trecho exato.

COLOQUE À PROVA

Descubra se o seu repertório está pontuando.

Escreva sobre um tema oficial e receba a nota da Competência 2 com o apontamento exato de qual referência sustentou o argumento e qual ficou solta no texto.

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