
Qual era o recorte do tema de 2025?
O enunciado tinha duas camadas de restrição, e ignorar qualquer uma delas levava a texto tangente.
| Camada | O que exigia | O que seria tangenciar |
|---|---|---|
| Perspectivas acerca do | Discutir projeções, expectativas e o modo como a sociedade enxerga o envelhecimento — não apenas descrever a velhice | Escrever um retrato da terceira idade sem apontar para o futuro nem para o olhar social |
| do envelhecimento | O processo demográfico e individual de envelhecer | Falar genericamente de saúde pública sem chegar à velhice |
| na sociedade brasileira | O Brasil, com seus dados e suas instituições | Discutir o envelhecimento no Japão ou na Europa sem voltar ao país |
Três teses que funcionavam
O país envelhece mais rápido do que se prepara
Tese demográfica: a transição etária brasileira acontece em ritmo acelerado, sem que a rede de cuidado, a previdência e as cidades tenham se reorganizado. Argumentos: escassez de serviços de cuidado; ausência de adaptação urbana.
Envelhecer no Brasil é perder cidadania
Tese social: o valor atribuído à pessoa está ligado à sua capacidade produtiva, e a velhice desloca o indivíduo para fora dessa conta. Argumentos: etarismo no mercado de trabalho; invisibilidade na representação pública.
O cuidado recai sobre a família — e sobre a mulher
Tese que cruza envelhecimento e gênero: sem estrutura pública, o cuidado vira trabalho doméstico não remunerado. Argumentos: sobrecarga feminina; ausência de política nacional de cuidado.
Repertório que encaixava no recorte
| Tipo | Repertório | Como conectar |
|---|---|---|
| Dado | A proporção de pessoas com 60 anos ou mais passou de 11,3% em 2012 para 16,6% em 2025 (PNAD Contínua, IBGE) | Mostra a velocidade da transição — sustenta a tese do descompasso |
| Dado | A expectativa de vida ao nascer chegou a 76,6 anos, a maior já registrada (IBGE, 2024) | Viver mais é conquista; a pergunta é em que condições — abre o argumento |
| Projeção | A população deve parar de crescer em 2041 e cair para 199,3 milhões até 2070 (IBGE) | Encaixa direto na palavra “perspectivas” do enunciado |
| Lei | Art. 230 da Constituição: a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, defendendo sua dignidade e bem-estar | Estrutura “o direito existe, a prática não cumpre” |
| Lei | Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003) — nome atualizado em 2022 | Detalha direitos específicos; útil também na proposta de intervenção |
| Pensador | Milton Santos, *O Espaço do Cidadão*: a cidadania brasileira é distribuída conforme classe e poder de compra | Sustenta a tese de que perder renda ao envelhecer significa perder acesso |
| Dado cruzado | Mulheres dedicam 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidado; homens, 11,7 (IBGE, 2022) | Liga envelhecimento a gênero — o ângulo menos previsível dos três |
Propostas de intervenção para o tema
- Saúde: cabe ao Ministério da Saúde ampliar a atenção domiciliar, por meio da contratação de equipes multiprofissionais para as unidades básicas, a fim de alcançar quem não consegue se deslocar, priorizando municípios com maior proporção de pessoas acima de 60 anos.
- Trabalho: cabe ao Ministério do Trabalho e Emprego fiscalizar a discriminação etária em processos seletivos, por meio de canal de denúncia e auditoria em grandes empregadores, com o objetivo de manter o trabalhador mais velho no mercado formal.
- Cidade: cabe às prefeituras adaptar calçadas, transporte e praças, por meio de recursos próprios e emendas parlamentares, seguindo as normas de acessibilidade, a fim de garantir circulação autônoma.
- Cuidado: cabe ao Congresso Nacional estruturar uma política nacional de cuidado, por meio de lei que reconheça e financie o trabalho de cuidadores, para desonerar as famílias — em especial as mulheres.
- Cultura: cabe à mídia e às escolas combater o etarismo, por meio de campanhas e de conteúdo curricular sobre envelhecimento, a fim de desconstruir a associação entre velhice e inutilidade.
Os erros mais prováveis nesse tema
| Erro | Por quê |
|---|---|
| Escrever sobre saúde pública em geral | Perde a camada “envelhecimento” do recorte |
| Comparar com o Japão e ficar por lá | Perde a camada “na sociedade brasileira” — foi exatamente esse o tangenciamento descrito pelo Inep em 2024 |
| Tratar a velhice só como problema | O enunciado fala em perspectivas, o que inclui viver mais como conquista |
| Proposta paternalista | Solução que trata a pessoa idosa como incapaz contradiz o próprio argumento de dignidade |
| Repertório genérico sobre “modernidade líquida” | Encaixe forçado: o conceito trata de vínculos provisórios, não de envelhecimento |
A lista completa dos enunciados, com o padrão que eles revelam, está em todos os temas do ENEM.
Perguntas frequentes
Qual foi o tema da redação do ENEM 2025?
“Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”. O recorte exigia discutir projeções e o olhar social sobre a velhice, dentro do Brasil.
O que era tangenciar o tema de 2025?
Descrever a velhice sem tratar de perspectivas, discutir saúde pública sem chegar ao envelhecimento, ou analisar o envelhecimento em outros países sem voltar ao Brasil.
Quais dados usar sobre envelhecimento no Brasil?
A proporção de pessoas com 60 anos ou mais subiu de 11,3% em 2012 para 16,6% em 2025, segundo a PNAD Contínua do IBGE; a expectativa de vida chegou a 76,6 anos em 2024; e a população deve parar de crescer em 2041.
O tema de 2025 pode cair de novo?
O enunciado exato não se repete, mas o campo temático volta com recortes diferentes — como a condição da mulher, que apareceu em 2015 e em 2023. Envelhecimento cruzado com trabalho, cuidado ou cidade segue sendo treino útil.
Fontes
- PNAD Contínua e Projeções da População — IBGE
- Constituição Federal de 1988 — artigo 230 — Presidência da República
- Estatuto da Pessoa Idosa — Lei nº 10.741/2003 — Presidência da República
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